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sábado, 22 de agosto de 2015

Das Homilias de Santo Amadeu, bispo de Lausana

Celebrando hoje a memória de Nossa Senhora Rainha, 
a Liturgia das Horas no dá um belíssimo texto do século II. 
Leia na íntegra: 

(Hom. 7:SCh 72,188.190.192.200)            (Séc.XII)

Rainha do mundo e da paz
Considera com que justa disposição refulgiu, já antes da assunção, o admirável nome de Maria por toda a terra. Sua fama extraordinária por toda a parte se espalhou antes que sua magnificência fosse elevada acima dos céus. Pois convinha que a Virgem Mãe, em honra de seu Filho, primeiro reinasse na terra, em seguida,fosse recebida gloriosa nos céus. Fosse amplamente conhecida na terra, antes de entrar na santa plenitude. Levada de virtude em virtude, fosse assim exaltada de claridade em claridade pelo Espírito do Senhor.  
Presente na carne, Maria antegozava as primícias do reino futuro, ora subindo até Deus com inefável sublimidade, ora descendo até os irmãos com inenarrável caridade. Lá recebia os obséquios dos anjos, aqui era venerada pela submissão dos homens. Servia-lhe Gabriel com os anjos; ao lado dos apóstolos servia-lhe João, feliz por lhe ter sido confiada a Virgem Mãe a ele, virgem. Alegravam-se aqueles por vê-la rainha; estes por sabê-la senhora. Todos a obedeciam de coração. 
E ela, assentada no mais alto cume das virtudes, repleta do oceano dos carismas divinos, do abismo das graças, ultrapassando a todos, derramava largas torrentes ao povo fiel e sedento. Concedia a saúde aos corpos e às almas, podendo ressuscitar da morte da carne e da alma. Quem jamais partiu de junto dela doente ou triste ou ignorante dos mistérios celestes? Quem não voltou para casa contente e jubiloso, tendo impetrado de Maria, a Mãe do Senhor, o que queria? 
Ela é esposa repleta de tão grandes bens, mãe do único esposo, suave e preciosa nas delícias. Ela é como fonte dos jardins inteligíveis, poço de águas vivas e vivificantes, que correm impetuosas do Líbano divino, fazendo descer do monte Sião até às nações estrangeiras vizinhas rios de paz e mananciais de graças vindas do céu. E assim, ao ser elevada a Virgem das Virgens por Deus e seu Filho, o rei dos reis, no meio da exultação dos anjos, da alegria dos arcanjos e das aclamações de todo o céu, cumpriu-se a profecia do Salmista que diz ao Senhor: Está à tua destra a rainha recoberta de bordados a ouro, em vestes variadas (Sl 44,10).

segunda-feira, 3 de fevereiro de 2014

A Catequese dos Pregadores Medievais


• Uma pregação itinerante

   A pregação religiosa na Idade Média ocorreu de diversas formas, em muitas situações diferentes. Havia muitos pregadores pelas ruas, palácios, estradas, mercados, feiras, pequenas vilas e mosteiros. Buscava-se anunciar Jesus e os valores do evangelho em linguagem popular, por meio de histórias, exemplos, poesias... Papa muitos, essa era uma das poucas formas, se não a única, de anúncio do evangelho, de conhecer as histórias e personagens bíblicos e de aprender as virtudes cristãs. 
  São os monges que mais se destacam no exercício da pregação, em vários países da Europa. Na Irlanda, são esses pregadores que recordam as exigências cristãs, enquanto peregrinam ou perambulam de vila em vila, de cidade em cidade. No caminho, vão fundando mosteiros e generalizando a prática da confissão privada. Destaca-se entre eles, Columbano. Outros monges, de tradição beneditina, também se põem a caminho, como Agostinho e Beda, o Venerável, pregando e comentando as Escrituras.
  Dessa forma, de país em país, o cristianismo vai se propagando entre os povos europeus, não sem as contradições e dificuldades humanas, como a língua, os costumes e os jogos de poder.

• As ordens medicantes

 Os chamados monges mendicantes eram também pregadores. Viviam e pregavam a pobreza, denunciando a riqueza conquistada com usura, o que era contra os princípios evangélicos, e trabalhando para sua subsistência. O rosto do Cristo pobre era o modelo para esses homens e mulheres.
  São Domingos, fundador dos Dominicanos, colocou a pregação no centro da atividade da ordem, o que exigiu uma reorganização da vida religiosa para que os irmãos se dedicassem ao estudo. Deram grande atenção à vida religiosa feminina, criando o que se chamou de "segunda ordem".
 São Francisco de Assis fundou a ordem dos "Irmãos Menores". Sua decisão pela vida pobre tornou-se grande testemunho cristão do seu período, e também um modelo de vida para toda a humanidade. Junto com seus companheiros, Francisco sai a anunciar, com alegria, boa-voa da paz.
  Os carmelitas, por sua vez, nasceram como ordem contemplativa, durante o tempo das cruzadas. Foram os seus reformuladores que deram à ordem também o caráter evangelizador, como Simão Stock, que foi um pregador popular. Assim, dirigiram-se às cidades, onde realizaram uma ação evangelizadora entre o povo. Com a reforma de Tere a D'Ávila e João da Cruz, houve a mescla entre a vida contemplativa e o espírito apostólico, sendo os Carmelitas os cofundadores da Congregação para a Propagação da Fé (1622). 
  Na atividade da pregação os monges premostratenses, ordem fundada por são Norberto de Xanten, também se destacaram. Eram pregadores ambulantes que tinham no apóstolo Paulo o modelo de evangelizador. Foram seguidos por homens e mulheres. Estas tiveram, pela primeira vez na Idade Média, um acampamento espiritual. Os monges ambulantes também se organizaram em mosteiros e dedicaram grande esforço na evangelização do povo simples. Dessa forma, foi-se configurado um certo tipo de sacerdotes, o do povo. 

• Como pregavam

  A pregação, como educação da fé, fica mais evidente no século XIII, quando os pregadores se tornam mais próximos do povo e procuravam usar o idioma local, como vimos pelo exemplo das ordens medicantes. Nem todos são sacerdotes e precisam de autorização da hierarquia da Igreja para pregar. Os que rompem com a doutrina e com essa forma de organização são considerados hereges. 
  Para combater as heresias, os pregadores utilizavam de várias estratégias, entre elas a de mudar o local do sermão nas Igrejas, com o púlpito no meio dos fiéis; a de pregar em lugares fora das Igrejas, como perto dos moinhos (são Domingos); o de utilizar a vida cotidiana como fonte para os exemplos. 
  Além disso, os ouvintes podiam participar das pregações, manifestando suas opiniões, perguntando, aplaudindo ou o contradizendo o pregador.
 Os pregadores procuram também converter os muçulmanos pela persuasão do discurso. Vários vão acompanhar as Cruzadas com esse intuito, como são Bernardo de Claraval e são Francisco de Assis. Desse último, conhecemos a história de sua tentativa de converter o sultão do Egito. 
 Além de combater às heresias, as pregações possuíam também um caráter moral, com o ensinamento das virtudes e contra os vícios. 



segunda-feira, 13 de janeiro de 2014

Catequese na História da Igreja - A mistagogia nas primeiras Comunidades

   A palavra "mistagógico" vem de mistério e, na vida da Igreja, nas atividades catequéticas, faz referência, principalmente, ao mistério pascal: paixão, morte e ressurreição de Jesus. O caminho catequético, o "ensinamento dos apóstolos", passou e continua passando pela celebração do mistério, visto que não o podemos compreender, mas celebrar e viver. vamos aprender com as primeiras comunidades esse caminhar mistagógico. 

Os sacramentos — caminho de vivência do mistério 

   Ensinar a celebração e viver o mistério cristão não foi tarefa fácil para as primeiras comunidades, porque estavam cercadas por outras religiões que também celebravam mistérios, mas com o sentido bem diferente dos cristãos. Por isso, foi preciso tomar muito cuidado para não confundir os homens e mulheres que se aproximaram das comunidades, mas ajudá-los no processo de iniciação à vida cristã. 
   Essa caminhada ficou conhecida como o rito de iniciação dos cristãos, acolhendo as pessoas que queriam participar da comunidade cristã e preparando-as para essa vivência por meio dos sacramentos iniciais: o batismo, a crisma e a eucaristia. 
  Os primeiros cristãos compreendiam que somente após a iniciação a pessoa estaria "preparada" para receber os ensinamentos sobre os mistérios. Em ritual antigo, ao receber os sacramentos, os novos cristãos ouviam: "Tomaste parte nos sacramentos e tens pleno conhecimento de tudo, uma vez que és batizado em nome da Trindade" (Os sacramentos, III, 12). Como lembra Paulo apóstolo: "Na realidade, é aos maduros na fé que falamos de uma sabedoria que não foi dada por este mundo (...) Ensinamos uma coisa misteriosa e escondida: a sabedoria de Deus" (1Cor 2. 6-7a).
   O batismo, como o mergulho na nova vida em Cristo, oferece essa "iluminação", capaz de levar a pessoa ao conhecimento ao conhecimento, isto é, à participação no mistério trinitário de salvação. Assim, a pessoa morre para a vida que levava e nasce para a nova vida em Cristo: podendo participar da vida e morte do Senhor, também participa de sua ressurreição. 

Mais do que celebrar, viver!

   A introdução aos mistérios da fé, a mistagogia, era uma etapa no processo de iniciação dos cristãos, que ocorria no tempo pascal. A pessoa já batizada, era conduzida à contemplação e experiência dos mistérios da fé na vida em comunidade, sobretudo na liturgia, auxiliada pelos evangelhos próprios desse tempo (cf. PAIVA, V., Catequese e liturgia, duas faces do mesmo mistério, Paulus, 2008, p. 35)
   Mas havia, entre os primeiros cristãos, a preocupação de que a vivência da fé não fosse confundida com a "mera" celebração dos ritos. Os ritos só têm sentido quando ajudam a celebrar a vida, unida à fé e iluminada por ela. Foi assim com Cristo: sua vida e atividade culminaram com a ressurreição. Portanto, o cristão também é chamado a viver o mistério, gerando ressurreição, para que homens e mulheres tenham vida plena. Esse é o sentido do amor cristão. João, o evangelista, em sua primeira carta, escreve: "Compreendemos o que é o amor, porque Jesus deu a vida por nós; portanto, nós também devemos dar vida pelos irmãos (...). Filhinhos ], não amemos com palavras nem a língua, mas com obras e de verdade" (1Jo 3, 16. 18).
   É nesse sentido que Vanildo de Paiva salienta em seu livro já citado que "o anúncio da palavra não era transmitido como uma adesão intelectual, teórica, 'de cabeça', mas com o entusiasmo daqueles que experimentavam, na vida pessoal, a força do mistério pascal (...). A autenticidade do mistagogo estava não somente no que falava, mas no que experimentava e testemunhava na vida cotidiana" (p. 37).
   
Liturgia e catequese juntas

   A marca registrada da iniciação da fé dos cristãos nas primeiras comunidades é a união profunda entre catequese e liturgia. Como vimos anteriormente, essa iniciação se dava unindo a celebração dos sacramentos (dimensão litúrgica) com o "conhecimento" da fé (dimensão catequética). A mistagogia era esse "aprofundar" no conhecimento da fé, após a iniciação sacramental. 
   O anúncio da palavra suscita a fé e leva a pessoa ao encontro com Cristo. O mistério cristão, celebrado nos ritos sacramentais, atualiza o acontecimento Jesus Cristo, faz a "memória" do Senhor, morto e ressuscitado. O batismo é a primeira páscoa, transformando radicalmente a pessoa que o recebe; a crisma torna-a participação do dom do Espírito e a eucaristia é a celebração plena da Páscoa de Cristo pela Igreja. Como aforma a Rica (Ritual de Iniciação Cristã de Adultos), "como a iniciação cristã é a primeira participação sacramental na morte e ressurreição de Cristo (...) toda a iniciação deve ter caráter pascal" (n. 8).
   Há uma relação entre o anúncio do mistério com a celebração, entre a celebração da fé e a vivência cristã. A graça celebrada prossegue na vida e leva ao testemunho, ao anúncio aos outros. Dessa forma, as primeiras comunidades não separam as dimensões do anúncio, da celebração, do martírio, do serviço e da missão. Antes, entendem que elas compõem a vida cristã como um todo.