sexta-feira, 28 de março de 2014

A Igreja Particular

   A Igreja particular por excelência é a diocese, que segundo o cân. 369 do código de Direito Canônico, tomando quase que literalmente as palavras do Decreto Christus Dominus n.° 11, do Vaticano II, é "uma porção do povo de Deus cujo cuidado pastoral se encomenda a um bispo, com a colaboração de todo o presbitério, de modo que unida a seu pastor e congregada no Espírito Santo pelo Evangelho e a Eucaristia está nela presente e atua a Igreja de Cristo" una, santa, católica e apostólica.
   Mas por que a diocese é uma porção do povo de Deus e não um parcela? Porque a parcela é somente um dos elementos que constituem o todos, enquanto que na porção estão presentes todos os elementos que compõem o todo. Vejamos um exemplo, para fazer um bolo, é necessário farinha, leite, ovos, manteiga, fermento. Cada um desses ingredientes é uma parcela do bolo. Porém, se eu pego uma porção do bolo (um pedaço dele), vou encontrar ali todos os ingredientes que usei para fazê-lo.
   Assim, na Igreja particular podemos dizer que o bispo é uma parcela; o clero, outra; os leigos, outra; a cúria diocesana, outra. E assim vai. Mas todos os elementos juntos nos dão uma visão real da Igreja de Jesus Cristo, de tal forma que, numa Igreja particular, a Igreja inteira de Cristo está presente.
   "Devemos afirmar que a comunhão eclesiástica de uma porção do povo de Deus é uma Igreja particular, enquanto está formada á imagem da Igreja universal (LG 23a), porque nela se encontram todos os elementos essenciais da natureza da Igreja (...). Desse modo, nas Igrejas particulares existe a única Igreja Católica universal, que é a comunhão eclesial de todas as Igrejas".
   As diocese são livremente criadas pela Santa Sé (Papa), sem a interferência dos governantes de cada nação. No nosso país, o governo brasileiro reconhece a ela pela autonomia para sua organização no país. O biso diocesano dispõe de uma certa autonomia para dirigir sua diocese em todos os sentidos, com exceção daqueles assuntos reservados à Santa Sé ou que venham a ter influência da disciplina da Igreja universal. Assim, o bispo diocesano se torna ponto de unidade de todos aqueles que pertencem à Igreja particular e é o grande coordenador de todas as sua atividades, devendo dar o exemplo de ser o bom pastor para todas as ovelhas, sejam elas católicas ou não.
   É neste contexto que se insere a paróquia como uma porção da Igreja particular e onde acontece realmente o dia a dia da visa do povo de Deus. 

terça-feira, 4 de fevereiro de 2014

O livro do Êxodo

   O termo êxodo quer dizer "saída". O segundo livro do Pentateuco traz este nome porque começa com o processo de libertação dos hebreus que eram escravizados na terra do Egito, fato ocorrido por volta do ano 1.250 antes de Jesus Cristo. 
   Quem não conhece a mensagem deste livro nunca irá entender o sentido de todos as sagradas escrituras, porque está fundamentada no livro do Êxodo a noção e a ideia que se tinha de Deus, seja no antigo ou no novo testamento. 

Qual é a mensagem central do livro do Êxodo?

      É a revelação do nome do Deus verdadeiro: Javé, que, na realidade do Êxodo, está ligado ao ato libertador de Deus para com o povo hebreu. Javé é um Deus único, que ouve o grito de seu povo escravizado, oprimido, e o conduz à liberdade para selar uma aliança, dando ao povo uma lei que transforma as relações entre as pessoas. É disso que nasce uma comunidade em que são garantidas a vida, liberdade e a dignidade. A aliança é selada de duas maneiras: como princípios de vida (os dez mandamentos), que têm a missão de orientar o povo para uma vivência social, e as leis (código da aliança), com a finalidade de conduzir o povo a uma vivência dos mandamentos nas várias realidades da vida social.

Por que é um Deus libertador?

   Porque, por meio de sua ação e mandamentos, oferece a liberdade para todos os tipos de escravizadão, para que o ser humano se coloque a serviço desta libertação em todos os âmbitos da vida. Por causa da libertação integral que aparece no decálogo e no código da aliança, em beneficio do ser humano, é que podemos perceber quem é o Deus único e verdadeiro, aquele que promove a vida do ser humano: este é Javé, digno de adoração. Qualquer noção de Deus, fora do âmbito da realidade da libertação humana, é um ídolo, e de ver rejeitado. 

Qual será o verdadeiro Deus?

   A esta pergunta, o livro do Êxodo nos aponta para toda bíblia, sobretudo na opção de vida de Jesus, sua encarnação, opção pelos pobres e sua atividade manifestando o reino de Deus. Por esta razão, o livro do Êxodo é de vital significado para o nosso entendimento a respeito de Jesus de Nazaré como Filho de Deus, e para nossa compreensão de que vem a ser o reino de Deus.

Esquema do Livro

   Ex 1, 1-22: o povo de Israel no Egito; 2, 1-22: nascimento e chamado de Moisés; 2, 23-25: Deus lembra-se da aliança com os ancestrais de Israel; 3, 1-6: a sarça que arde; 3, 7-10: é o coração do Êxodo; 3, 11-7, 7: chamado e resposta vocacional de Moisés; 7, 8-13, 16: temos a Páscoa, passagem de Deus que identifica e liberta seu povo; 13, 17-16, 21: saída do Egito, o Êxodo propriamente dito; 15, 22-18, 27: o povo hebreu no deserto; 19, 1-20, 21: a aliança e os dez mandamentos; 20, 22-23, 33: o código da aliança; 24, 1-18: conclusão da aliança; 25, 1-31, 18: prescrições que se referem à construção do santuário e seus ministros; 32, 1-35, 35: bezerro de ouro ou infidelidade do povo; renovação da aliança; 36, 1-40, 23: construção do santuário. 

segunda-feira, 3 de fevereiro de 2014

A Catequese dos Pregadores Medievais


• Uma pregação itinerante

   A pregação religiosa na Idade Média ocorreu de diversas formas, em muitas situações diferentes. Havia muitos pregadores pelas ruas, palácios, estradas, mercados, feiras, pequenas vilas e mosteiros. Buscava-se anunciar Jesus e os valores do evangelho em linguagem popular, por meio de histórias, exemplos, poesias... Papa muitos, essa era uma das poucas formas, se não a única, de anúncio do evangelho, de conhecer as histórias e personagens bíblicos e de aprender as virtudes cristãs. 
  São os monges que mais se destacam no exercício da pregação, em vários países da Europa. Na Irlanda, são esses pregadores que recordam as exigências cristãs, enquanto peregrinam ou perambulam de vila em vila, de cidade em cidade. No caminho, vão fundando mosteiros e generalizando a prática da confissão privada. Destaca-se entre eles, Columbano. Outros monges, de tradição beneditina, também se põem a caminho, como Agostinho e Beda, o Venerável, pregando e comentando as Escrituras.
  Dessa forma, de país em país, o cristianismo vai se propagando entre os povos europeus, não sem as contradições e dificuldades humanas, como a língua, os costumes e os jogos de poder.

• As ordens medicantes

 Os chamados monges mendicantes eram também pregadores. Viviam e pregavam a pobreza, denunciando a riqueza conquistada com usura, o que era contra os princípios evangélicos, e trabalhando para sua subsistência. O rosto do Cristo pobre era o modelo para esses homens e mulheres.
  São Domingos, fundador dos Dominicanos, colocou a pregação no centro da atividade da ordem, o que exigiu uma reorganização da vida religiosa para que os irmãos se dedicassem ao estudo. Deram grande atenção à vida religiosa feminina, criando o que se chamou de "segunda ordem".
 São Francisco de Assis fundou a ordem dos "Irmãos Menores". Sua decisão pela vida pobre tornou-se grande testemunho cristão do seu período, e também um modelo de vida para toda a humanidade. Junto com seus companheiros, Francisco sai a anunciar, com alegria, boa-voa da paz.
  Os carmelitas, por sua vez, nasceram como ordem contemplativa, durante o tempo das cruzadas. Foram os seus reformuladores que deram à ordem também o caráter evangelizador, como Simão Stock, que foi um pregador popular. Assim, dirigiram-se às cidades, onde realizaram uma ação evangelizadora entre o povo. Com a reforma de Tere a D'Ávila e João da Cruz, houve a mescla entre a vida contemplativa e o espírito apostólico, sendo os Carmelitas os cofundadores da Congregação para a Propagação da Fé (1622). 
  Na atividade da pregação os monges premostratenses, ordem fundada por são Norberto de Xanten, também se destacaram. Eram pregadores ambulantes que tinham no apóstolo Paulo o modelo de evangelizador. Foram seguidos por homens e mulheres. Estas tiveram, pela primeira vez na Idade Média, um acampamento espiritual. Os monges ambulantes também se organizaram em mosteiros e dedicaram grande esforço na evangelização do povo simples. Dessa forma, foi-se configurado um certo tipo de sacerdotes, o do povo. 

• Como pregavam

  A pregação, como educação da fé, fica mais evidente no século XIII, quando os pregadores se tornam mais próximos do povo e procuravam usar o idioma local, como vimos pelo exemplo das ordens medicantes. Nem todos são sacerdotes e precisam de autorização da hierarquia da Igreja para pregar. Os que rompem com a doutrina e com essa forma de organização são considerados hereges. 
  Para combater as heresias, os pregadores utilizavam de várias estratégias, entre elas a de mudar o local do sermão nas Igrejas, com o púlpito no meio dos fiéis; a de pregar em lugares fora das Igrejas, como perto dos moinhos (são Domingos); o de utilizar a vida cotidiana como fonte para os exemplos. 
  Além disso, os ouvintes podiam participar das pregações, manifestando suas opiniões, perguntando, aplaudindo ou o contradizendo o pregador.
 Os pregadores procuram também converter os muçulmanos pela persuasão do discurso. Vários vão acompanhar as Cruzadas com esse intuito, como são Bernardo de Claraval e são Francisco de Assis. Desse último, conhecemos a história de sua tentativa de converter o sultão do Egito. 
 Além de combater às heresias, as pregações possuíam também um caráter moral, com o ensinamento das virtudes e contra os vícios. 



domingo, 2 de fevereiro de 2014

Dos Sermões de São Sofrônio, bispo

Recebamos a luz clara e eterna

Todos nós que celebramos e veneramos com tanta piedade o mistério do encontro do Senhor, corramos para ele cheios de entusiasmo. Ninguém deixe de participar deste encontro, ninguém recuse levar sua luz.
Acrescentamos também algo ao brilho das velas, para significar o esplendor divino daquele que se aproxima e ilumina todas as coisas; ele dissipa as trevas do mal com a sua luz eterna, e também manifesta o esplendor da alma, com o qual devemos correr ao encontro com Cristo.
Do mesmo modo que a Mãe de Deus e Virgem imaculada trouxe nos braços a verdadeira luz e a comunicou aos que jaziam nas trevas, assim também nós: iluminados pelo seu fulgor e trazendo na mão uma luz que brilha diante de todos, corramos pressurosos ao encontro daquele que é a verdadeira luz.
Realmente, a luz veio ao mundo (cf. Jo 1,9) e dispersou as sombras que o cobriam; o sol que nasce do alto nos visitou (cf. Lc 1,78) e iluminou os que jaziam nas trevas. É este o significado do mistério que hoje celebramos. Por isso caminhamos com lâmpadas nas mãos, por isso acorremos trazendo as luzes, não apenas simbolizando que a luz já brilhou para nós, mas também para anunciar o esplendor maior que dela nos virá no futuro. Por este motivo, vamos todos juntos, corramos ao encontro de Deus.
Chegou a verdadeira luz, que vindo ao mundo ilumina todo ser humano (Jo 1,9). Portanto, irmãos, deixemos que ela nos ilumine, que ela brilhe sobre todos nós.
Que ninguém fique excluído deste esplendor, ninguém insista em continuar mergulhado na noite. Mas avancemos todos resplandecentes; iluminados por este fulgor, vamos todos ao seu encontro e com o velho Simeão recebamos a luz clara e eterna. Associemo-nos à sua alegria e cantemos com ele um hino de ação de graças ao Criador e Pai da luz, que enviou a luz verdadeira e, afastando todas as trevas, nos fez participantes do seu esplendor.
A salvação de Deus, preparada diante de todos os povos, manifestou a glória que nos pertence, a nós que somos o novo Israel. Também fez com que víssemos, graças a ele, essa salvação e fôssemos absolvidos da antiga e tenebrosa culpa. Assim aconteceu com Simeão que, depois de ver a Cristo, foi libertado dos laços da vida presente.
Também nós, abraçando pela fé a Cristo Jesus que nasceu em Belém, de pagãos que éramos, nos tornamos povo de Deus – Jesus é, com efeito, a salvação de Deus Pai – e vemos com nossos próprios olhos o Deus feito homem. E porque vimos a presença de Deus e a recebemos, por assim dizer,nos braços do nosso espírito, somos chamados de novo Israel. Todos os anos celebramos novamente esta festa, para nunca nos esquecermos daquele que um dia há de voltar.

(Orat. 3, de Hypapante,6.7: PG87,3,3291-3293)
(Séc.VII)



sábado, 1 de fevereiro de 2014

Oração da Coleta e Liturgia da Palavra

   A oração da coleta ou oração do dia é uma oração antiga, que tem sua origem os antigos sacramentários da tradição latina e oriental, o Sacramentário Gelasiano e o Sacramentário Gregoriano. Estes dois sacramentários estão na baso do nosso missal romano composto no século VII.
  O missal romano contempla três movimentos fundamentais na dinâmica do Sacrifício Eucarístico: o primeiro movimento são os ritos iniciais. O segundo se refere ao ofertório e o terceiro ao ritual de comunhão.
   A oração da coleta conclui os ritos iniciais, que são a acolhida da comunidade para o Santo Sacrifício, em suas duas partes fundamentais: Liturgia da palavra e Liturgia sacrifical (ou liturgia eucarística).
  A teologia da oração da coleta é a apresentação de toda comunidade a Deus para celebrar o mistério eucarístico. A comunidade vem à Igreja, cumprimenta o Senhor que a acolhe pede perdão de suas faltas, louva a Deus por suas maravilhas e se dispõe a celebrar. É o ápice dos ritos iniciais.
   Neste momento, o sacerdote acolhe a comunidade que faz seus pedidos silenciosamente e os apresenta a Deus, diante do altar eucarístico. Esta apresentação implica nos pedidos silenciosos, nos nomes dos fiéis defuntos e, quando houver memória santoral, os santos congregam-se à comunidade. 
  Algumas características são fundamentais. Podemos recordar que a assembléia está em pé, em sinal de abertura e disposição para celebrar.
 Quando o celebrante convida o povo para esta oração, todos fazem silêncio. É muito importante este silêncio, pois é o espaço pessoal para que o fiel se coloque diante de Deus, agradeça por sua vida e formule interiormente seus pedidos. 
  A oração coleta exprime a índole da celebração, ficando explícito se é uma missa solene, celebração santoral, solenidade dominical e, sobretudo, o tempo litúrgico.
  Os elementos oracionais mais evidentes são a invocação a Deus, os pedidos espirituais e o congregamento da comunidade para celebrar, com fé e fervor, o Sacrifício do Senhor. 
  Após o amém da oração coleta, a comunidade senta-se, mas deve esperar o celebrante dirigir-se à cadeira. A Liturgia da Palavra, que vem a seguir, tem um conteúdo de maior importância, pois é nesta hora que Deus nos fala solenemente. É o povo de Deus que está presente para ouvi-lo.

Palavra de Deus para os homens de boa vontade

   Deus, que está sempre presente pela criação, por sua ação na história e pelas inspirações sagradas, sempre se comunicou conosco, como nos ensina Paulo (cf. Cl 1, 15; 1Tm 1, 17), e o faz de formas variadas e misteriosas.
   A forma escolhida por Deus é a palavra como busca de intimidade e de integração divino-humana. A palavra de Deus cria comunhão. Para que Deus seja compreendido, Ele recorre à linguagem humana, pois sendo seu criador, conhece suas criaturas e pode, assim, enviar sua mensagem de fé. Ao invocar os seres humanos, Deus narra e interpreta nossa história, manifestando cada vez mais seu rosto e seu amor. 




sexta-feira, 31 de janeiro de 2014

Das Cartas de São João Bosco, presbítero

Sempre trabalhei com amor 

Antes de mais nada, se queremos ser amigos do verdadeiro bem de nossos alunos e levá-los ao cumprimento de seus deveres, é indispensável jamais vos esquecerdes de que representais os pais desta querida juventude. Ela foi sempre o terno objeto dos meus trabalhos, dos meus estudos e do meu ministério sacerdotal; não apenas meu, mas da cara congregação salesiana.
Quantas vezes, meus filhinhos, no decurso de toda a minha vida, tive de me convencer desta grande verdade! É mais fácil encolerizar-se do que ter paciência, ameaçar uma criança do que persuadi-la. Direi mesmo que é mais cômodo, para nossa impaciência e nossa soberba, castigar os que resistem do que corrigi-los, suportando-os com firmeza e suavidade.
Tomai cuidado para que ninguém vos julgue dominados por um ímpeto de violenta indignação. É muito difícil, quando se castiga, conservar aquela calma tão necessária para afastar qualquer dúvida de que agimos para demonstrar a nossa autoridade ou descarregar o próprio mau humor. Consideremos como nossos filhos aqueles sobre os quais exercemos certo poder. Ponhamo-nos a seu serviço, assim como Jesus, que veio para obedecer e não para dar ordens; envergonhemo-nos de tudo o que nos possa dar aparência de dominadores; e se algum domínio exercemos sobre eles, é para melhor servirmos.
Assim procedia Jesus com seus apóstolos; tolerava-os na sua ignorância e rudeza, e até mesmo na sua pouca fidelidade. A afeição e a familiaridade com que tratava os pecadores eram tais que em alguns causava espanto, em outros escândalo, mas em muitos infundia a esperança de receber o perdão de Deus. Por isso nos ordenou que aprendêssemos dele a ser mansos e humildes de coração.
Uma vez que são nossos filhos, afastemos toda cólera quando devemos corrigir-lhes as faltas ou, pelo menos, a moderemos de tal modo que pareça totalmente dominada.
Nada de agitação de ânimo, nada de desprezo no olhar, nada de injúrias nos lábios; então sereis verdadeiros pais e conseguireis uma verdadeira correção.
Em determinados momentos muito graves, vale mais uma recomendação a Deus, um ato de humildade perante ele, do que uma tempestade de palavras que só fazem mal a quem as ouve e não têm proveito algum para quem as merece.

(Epistolario, Torino 1959, 4,201-203)             (Séc.XIX)

São João Bosco, Presbítero

   Nasceu perto de Turim, na Itália, em 1815. Muito cedo conheceu o que significava a palavra sofrimento, pois perdeu o pai tendo apenas 2 anos. Sofreu incompreensões por causa de um irmão muito violento que teve. Dom Bosco quis ser sacerdote, mas sua mãe o alertava: “Se você quer ser padre para ser rico, eu não vou visitá-lo, porque nasci na pobreza e quero morrer nela”.
   Logo, Dom Bosco foi crescendo diante do testemunho de sua mãe Margarida, uma mulher de oração e discernimento. Ele teve que sair muito cedo de casa, mas aquele seu desejo de ser padre o acompanhou. Com 26 anos de idade, ele recebeu a graça da ordenação sacerdotal. Um homem carismático, Dom Bosco sofreu. Desde cedo, ele foi visitado por sonhos proféticos que só vieram a se realizar ao longo dos anos. Um homem sensível, de caridade com os jovens, se fez tudo para todos. Dom Bosco foi ao encontro da necessidade e da realidade daqueles jovens que não tinham onde viver, necessitavam de uma nova evangelização, de acolhimento. Um sacerdote corajoso, mas muito incompreendido. Foi chamado de louco por muitos devido à sua ousadia e à sua docilidade ao Divino Espírito Santo.
   Dom Bosco, criador dos oratórios. Catequeses e orientações profissionais foram surgindo para os jovens. Enfim, Dom Bosco era um homem voltado para o céu e, por isso, enraizado com o sofrimento humano, especialmente, dos jovens. Grande devoto da Santíssima Virgem Auxiliadora, foi um homem de trabalho e oração. Exemplo para os jovens, foi pai e mestre, como encontramos citado na liturgia de hoje. São João Bosco foi modelo, mas também soube observar tantos outros exemplos. Fundou a Congregação dos Salesianos dedicada à proteção de São Francisco de Sales, que foi o santo da mansidão. Isso que Dom Bosco foi também para aqueles jovens e para muitos, inclusive aqueles que não o compreendiam.
   Para a Igreja e para todos nós, é um grande intercessor, porque viveu a intimidade com Nosso Senhor. Homem orante, de um trabalho santificado, em tudo viveu a inspiração de Deus. Deixou uma grande família, um grande exemplo de como viver na graça, fiel a Nosso Senhor Jesus Cristo.
   Em 31 de janeiro de 1888, tendo se desgastado por amor a Deus e pela salvação das almas, ele partiu. Mas está conosco no seu testemunho e na sua intercessão.

São João Bosco, rogai por nós!

terça-feira, 28 de janeiro de 2014

Das Conferências de Santo Tomás de Aquino, presbítero

Na cruz não falta nenhum exemplo de virtude

Que necessidade havia para que o Filho de Deus sofresse por nós? Uma necessidade grande e, por assim dizer, dupla: para ser remédio contra o pecado e para exemplo do que devemos praticar.
Foi em primeiro lugar um remédio, porque na paixão de Cristo encontramos remédio contra todos os males que nos sobrevêm por causa dos nossos pecados.
Mas não é menor a utilidade em relação ao exemplo. Na verdade, a paixão de Cristo é suficiente para orientar nossa vida inteira. Quem quiser viver na perfeição, nada mais tema fazer do que desprezar aquilo que Cristo desprezou na cruz e desejar o que ele desejou. Na cruz, pois, não falta nenhum exemplo de virtude.
Se procuras um exemplo de caridade: Ninguém tem amor maior do que aquele que dá sua vida pelos amigos (Jo 15,13). Assim fez Cristo na cruz. E se ele deu sua vida por nós, não devemos considerar penoso qualquer mal que tenhamos de sofrer por causa dele.
Se procuras um exemplo de paciência, encontras na cruz o mais excelente! Podemos reconhecer uma grande paciência em duas circunstâncias: quando alguém suporta com serenidade grandes sofrimentos, ou quando pode evitar os sofrimentos e não os evita. Ora, Cristo suportou na cruz grandes sofrimentos, e com grande serenidade, porque atormentado, não ameaçava (1Pd 2,23); foi levado como ovelha ao matadouro e não abriu a boca (cf. Is 53,7; At 8,32).
É grande, portanto, a paciência de Cristo na cruz. Corramos com paciência ao combate que nos é proposto, com os olhos fixos em Jesus, que em nós começa e completa a obra da fé. Em vista da alegria que lhe foi proposta, suportou a cruz, não se importando com a infâmia (cf. Hb 12,1-2).
Se procuras um exemplo de humildade, contempla o crucificado: Deus quis ser julgado sob Pôncio Pilatos e morrer.
Se procuras um exemplo de obediência, segue aquele que se fez obediente ao Pai até à morte: Como pela desobediência de um só homem, isto é, de Adão, a humanidade toda foi estabelecida numa condição de pecado, assim também pela obediência de um só, toda a humanidade passará para uma situação de justiça (Rm 5,19).
Se procuras um exemplo de desprezo pelas coisas da terra, segue aquele que é Rei dos reis e Senhor dos senhores, no qual estão encerrados todos os tesouros da sabedoria e da ciência (Cl 2,3), e que na cruz está despojado de suas vestes, escarnecido, cuspido, espancado, coroado de espinhos e, por fim, tendo vinagre e fel como bebida para matar a sede.
Não te preocupes com as vestes e riquezas, porque repartiram entre si as minhas vestes (Jo 19,24); nem com honras, porque fui ultrajado e flagelado; nem com a dignidade, porque tecendo uma coroa de espinhos, puseram-na em minha cabeça (cf. Mc 15,17); nem com os prazeres, porque em minha sede ofereceram-me vinagre (Sl 68,22).

(Colatio 6 super Credo in Deum)              (Séc.XIII)



Santo Tomás de Aquino; Prespítero e Doutor da Igreja

   Neste dia lembramos uma das maiores figuras da teologia católica: Santo Tomás de Aquino. Conta-se que, quando criança, com cinco anos, Tomás, ao ouvir os monges cantando louvores a Deus, cheio de admiração perguntou: “Quem é Deus?”.
   A vida de santidade de Santo Tomás foi caracterizada pelo esforço em responder, inspiradamente para si, para os gentios e a todos sobre os Mistérios de Deus. Nasceu em 1225 numa nobre família, a qual lhe proporcionou ótima formação, porém, visando a honra e a riqueza do inteligente jovem, e não a Ordem Dominicana, que pobre e mendicante atraia o coração de Aquino.   
   Diante da oposição familiar, principalmente da mãe condessa, Tomás chegou a viajar às escondidas para Roma com dezenove anos, para um mosteiro dominicano. No entanto, ao ser enviado a Paris, foi preso pelos irmãos servidores do Império. Levado ao lar paterno, ficou, ordenado pela mãe, um tempo detido. Tudo isto com a finalidade de fazê-lo desistir da vocação, mas nada adiantou.
   Livre e obediente à voz do Senhor, prosseguiu nos estudos sendo discípulo do mestre Alberto Magno. A vida de Santo Tomás de Aquino foi tomada por uma forte espiritualidade eucarística, na arte de pesquisar, elaborar, aprender e ensinar pela Filosofia e Teologia os Mistérios do Amor de Deus.
   Pregador oficial, professor e consultor da Ordem, Santo Tomás escreveu, dentre tantas obras, a Suma Teológica e a Suma contra os gentios. Chamado “Doutor Angélico”, Tomás faleceu em 1274, deixando para a Igreja o testemunho e, praticamente, a síntese do pensamento católico.

Santo Tomás de Aquino, rogai por nós!

sábado, 25 de janeiro de 2014

Das Homilias de São João Crisóstomo, bispo

Por amor de Cristo, Paulo tudo suportou

O que é o homem, quão grande é a dignidade da nossa natureza e de quanta virtude é capaz a criatura humana, Paulo o demonstrou mais do que qualquer outro. Cada dia ele subia mais alto e se tornava mais ardente, cada dia lutava com energia sempre nova contra os perigos que o ameaçavam. É o que depreendemos de suas próprias palavras: Esquecendo o que fica para trás, eu me lanço para o que está na frente (cf. Fl 3,13). Percebendo a morte iminente, convidava os outros a comungarem da sua alegria, dizendo: Alegrai-vos e congratulai-vos comigo (Fl 2,18). Diante dos perigos, injúrias e opróbrios, igualmente se alegra e escreve aos coríntios: Eu me comprazo nas fraquezas, nas injúrias, nas necessidades, nas perseguições (2Cor 12,10); porque sendo estas, conforme declarava, as armas da justiça, mostrava que delas lhe vinha um grande proveito.
Realmente, no meio das insídias dos inimigos, conquistava contínuas vitórias triunfando de todos os seus assaltos. E em toda parte, flagelado, coberto de injúrias e maldições, como se desfilasse num cortejo triunfal, erguendo numerosos troféus, gloriava-se e dava graças a Deus, dizendo: Graças sejam dadas a Deus que nos fez sempre triunfar (2Cor 2,14). Por isso, corria ao encontro das humilhações e das ofensas que suportava por causa da pregação, com mais entusiasmo do que nós quando nos apressamos para alcançar o prazer das honrarias; aspirava mais pela morte do que nós pela vida; ansiava mais pela pobreza do que nós pelas riquezas; e desejava muito mais o trabalho sem descanso do que nós o descanso depois do trabalho. Uma só coisa o amedrontava e fazia temer: ofender a Deus. E uma única coisa desejava: agradar a Deus.
Só se alegrava no amor de Cristo, que era para ele o maior de todos os bens; com isto julgava-se o mais feliz dos homens; sem isto, de nada lhe valia ser amigo dos senhores e poderosos. Com este amor preferia ser o último de todos, isto é, ser contado entre os réprobos, do que encontrar-se no meio de homens famosos pela consideração e pela honra, mas privados do amor de Cristo.
Para ele, o maior e único tormento consistia em separar-se de semelhante amor; esta era a sua geena, o seu único castigo, o infinito e intolerável suplício.
Em compensação, gozar do amor de Cristo era para ele a vida, o mundo, o anjo, o presente, o futuro, o reino, a promessa, enfim, todos os bens. Afora isto, nada tinha por triste ou alegre. De tudo o que existe no mundo, nada lhe era agradável ou desagradável.
Não se importava com as coisas que admiramos, como se costuma desprezar a erva apodrecida. Para ele, tanto os tiranos como as multidões enfurecidas eram como mosquitos.
Considerava como brinquedo de crianças os mil suplícios, os tormentos e a própria morte, desde que pudesse sofrer alguma coisa por Cristo.

(Hom. 2 de laudibus sancti Pauli: PG 50,447-480)             (Séc.IV)

creditos: http://www.liturgiadashoras.org/

O Apóstolo de Jesus Crucificado

   São Paulo é o Apóstolo da Cruz. Só quis conhecer e pregar Jesus Cristo crucificado. Por isso foi o vaso de eleição para levar o nome de Jesus aos gentios. "E eu lhe farei ver, disse o Senhor a Ananias, como é preciso sofrer pelo meu nome" (Atos 9, 15-16). O grande Apóstolo se gloriava nas suas dores, nas suas fraquezas, para ter a força Divina. E não temia nem os ultrajes, nem as injúrias, perseguições, desprezos, açoites, por amor de Jesus Cristo, com quem vivia tão estreitamente unido até à identificação, essa sublime identificação de que ele se faz arauto. "Vivo, escreveu ele, mas já não sou eu que vivo, mas Cristo que vive em mim" (Gl 2, 20). Eis o segredo de todos os prodígios do seu apostolado, da conversão de tantos gentios e de sua pregação eficaz e maravilhosa. São Paulo foi saciado de amarguras desde que conheceu Jesus Cristo e resolver pregar a loucura da Cruz. Ele nos ensina a pagar o mal com o bem, a ser pequeno, humilde, a padecer afrontas e desprezar as frivolidades do século. Pregar Jesus crucificado. Ó doce e preciosa doutrina! Que riqueza! As epístolas de São Paulo consolam o coração aflito! Quando Saulo caiu na estrada de Damasco, perguntou a Deus: "Senhor, que queres que eu faça?" E foi fiel à graça, à vontade de Deus! Na estrada de nossa vida, quando nos fulminar algum desses raios de dor, voltemo-nos para o céu e consultemos a vontade Divina: "Meu Deus, que queres que eu faça?" E aceitemos o que vier do Céu!

(O Breviário da Confiança, 25 de janeiro) 


Conversão de São Paulo

     O apóstolo dos gentios e das nações nasceu em Tarso. Da tribo de Benjamim, era judeu de nação. Tarso era mais do que uma colônia de Roma, era um município. Logo, ele recebeu também o título de cidadão romano. O seu pai pertencia à seita dos fariseus. Foi neste ambiente, em meio a tantos títulos e adversidades, que ele foi crescendo e buscando a Palavra de Deus.
      Combatente dos vícios, foi um homem fiel a Deus. Paulo de Tarso foi estudar na escola de Gamaliel, em Jerusalém, para aprofundar-se no conhecimento da lei, buscando colocá-la em prática. Nessa época, conheceu o Cristianismo, que era tido como um seita na época. Tornou-se, então, um grande inimigo dessa religião e dos seguidores desta. Tanto que a Palavra de Deus testemunha que, na morte de Santo Estevão, primeiro mártir da Igreja, ele fez questão de segurar as capas daqueles que o [Santo Estevão] apedrejam, como uma atitude de aprovação. Autorizado, buscava identificar cristãos, prendê-los, enfim, acabar com o Cristianismo. O intrigante é que ele pensava estar agradando a Deus. Ele fazia seu trabalho por zelo, mas de maneira violenta, sem discernimento. Era um fariseu que buscava a verdade, mas fechado à Verdade Encarnada. Mas Nosso Senhor veio para salvar todos.
  Encontramos, no capítulo 9 dos Atos dos Apóstolos, o testemunho: “Enquanto isso, Saulo só respirava ameaças e morte contra os discípulos do Senhor. Apresentou-se ao príncipe dos sacerdotes e pediu-lhes cartas para as sinagogas de Damasco, com o fim de levar presos, a Jerusalém, todos os homens e mulheres que seguissem essa doutrina. Durante a viagem, estando já em Damasco, subitamente o cercou uma luz resplandecente vinda do céu. Caindo por terra, ouviu uma voz que lhe dizia: ‘Saulo, Saulo, por que me persegues?’. Saulo então diz: ‘Quem és, Senhor?’. Respondeu Ele: ‘Eu sou Jesus, a quem tu persegues. Duro te é recalcitrar contra o aguilhão’. Trêmulo e atônito, disse Saulo: ‘Senhor, que queres que eu faça?’ respondeu-lhe o Senhor: ‘Levanta-te, entra na cidade, aí te será dito o que deves fazer’”.
        O interessante é que o batismo de Saulo é apresentado por Ananias, um cristão comum, mas dócil ao Espírito Santo.
        Hoje estamos comemorando o testemunho de conversão de São Paulo. Sua primeira pregação foi feita em Damasco. Muitos não acreditaram em sua mudança, mas ele perseverou e se abriu à vontade de Deus, por isso se tornou um grande apóstolo da Igreja, modelo de todos os cristãos.

São Paulo de Tarso, rogai por nós!


sexta-feira, 24 de janeiro de 2014

Da Introdução à Vida Devota, de São Francisco de Sales, Bispo (Pars 1, cap. 3)

A devoção deve ser praticada de modos diferentes

 Na criação, Deus Criador mandou às plantas que cada uma produzisse fruto conforme sua espécie. Do mesmo modo, ele ordenou aos cristãos, plantas vivas de sua Igreja, que produzissem frutos de devoção, cada qual de acordo com sua categoria, estado e vocação.
A devoção deve ser praticada de modos diferentes pelo nobre e pelo operário, pelo servo e pelo príncipe, pela viúva, pela solteira ou pela casada. E isto ainda não basta. A prática da devoção deve adaptar-se às forças, aos trabalhos e aos deveres particulares de cada um.
Dize-me, por favor, Filotéia, se seria conveniente que os bispos quisessem viver na solidão como os cartuxos; que os casados não se preocupassem em aumentar seus ganhos mais que os capuchinhos; que o operário passasse o dia todo na igreja como o religioso; e que o religioso estivesse sempre disponível para todo tipo de encontros a serviço do próximo, como o bispo. Não seria ridícula, confusa e intolerável esta devoção?
Contudo, este erro absurdo acontece muitíssimas vezes. E no entanto, Filotéia, a devoção quando é verdadeira não prejudica a ninguém; pelo contrário, tudo aperfeiçoa e consuma. E quando se torna contrária à legítima ocupação de alguém, é falsa, sem dúvida alguma.
A abelha extrai seu mel das flores sem lhes causar dano algum, deixando-as intactas e frescas como encontrou. Todavia, a verdadeira devoção age melhor ainda, porque não somente não prejudica a qualquer espécie de vocação ou tarefa, mas ainda as engrandece e embeleza.
Toda a variedade de pedras preciosas lançadas no mel, tornam-se mais brilhantes, cada qual conforme sua cor; assim também cada um se torna mais agradável e perfeito em sua vocação quando esta for conjugada com a devoção: o cuidado da família se torna tranquilo, o amor mútuo entre marido e mulher, mais sincero, o serviço que se presta ao príncipe, mais fiel, e mais suave e agradável o desempenho de todas as ocupações.
É um erro, senão até mesmo uma heresia, querer excluir a vida devota dos quartéis de soldados, das oficinas dos operários, dos palácios dos príncipes, do lar das pessoas casadas. Confesso, porém, caríssima Filotéia, que a devoção puramente contemplativa, monástica e religiosa de modo algum pode ser praticada em tais ocupações ou condições. Mas, para além destas três espécies de devoção, existem muitas outras, próprias para o aperfeiçoamento daqueles que vivem no estado secular.
Portanto, onde quer que estejamos, devemos e podemos aspirar à vida perfeita.

creditos: http://www.liturgiadashoras.org/

São Francisco de Sales; Bispo e Doutor da Igreja

   Este santo nasceu no Castelo de Sales em 1567. Sua mãe, uma condessa, buscou formá-lo muito bem com os padres da Companhia de Jesus, onde, dentre muitas disciplinas, também aprendeu várias línguas. Muito cedo, fez um voto de viver a castidade e buscar sempre a vontade do Senhor. Ao longo da história desse santo muito amado, vamos percebendo o quanto ele buscou e o quanto encontrou o que Deus queria.
Anos mais tarde, São Francisco escreveu “Introdução à vida devota” e, vivendo do amor de Deus, escreveu também o “Tratado do amor de Deus”.
Certa ocasião, atacado pela tentação de desconfiar da misericórdia do Senhor, ele buscou a resposta dessa dúvida com o auxílio de Nossa Senhora e, assim, a desconfiança foi dissipada. Estudou Direito em Pádua, mas, contrariando familiares, quis ser padre. E foi um sacerdote que buscou a santidade não só para si, mas também para os outros.
No seu itinerário de pregações, de zelo apostólico e de evangelização, semeando a unidade e espalhando, com a ajuda da imprensa, a sã doutrina cristã, foi escolhido por Deus para o serviço do episcopado em Genebra. Primeiro, como coadjutor, depois, sendo o titular. Um apóstolo do amor e da misericórdia. Um homem que conseguiu expressar, com o seu amor e a sua vida, a mansidão do Senhor.
Diz-se que, depois de sua morte, descobriu-se que sua mesa de trabalho estava toda arranhada por baixo, porque, com seu temperamento forte, preferia arranhar a mesa a responder sem amor e sem mansidão para as pessoas.
Doutor da Igreja, é fundador da Ordem da Visitação, titular e patrono da família salesiana, fundada por Dom Bosco, que se inspirou nele ao adotar o nome [salesiano]. Também é patrono dos escritores e dos jornalistas devido ao estilo e ao conteúdo de seus escritos.
Esse grande santo da Igreja morreu com 56 anos, sendo que 21 deles foram vividos no episcopado como servo para todos e sinal de santidade.
Peçamos a intercessão desse grande santo para que, numa vida devota e vivendo do amor de Deus, possamos percorrer o nosso caminho em busca de Deus em todos os caminhos.
São Francisco de Sales, rogai por nós!

quinta-feira, 23 de janeiro de 2014

A celebração das exéquias

Celebração e compromisso

   O batismo introduz o cristão na participação do mistério pascal (vida, paixão, morte e ressurreição) de Cristo. Essa participação é revivida e aprofundada em cada celebração litúrgica, quer seja de um sacramento, quer seja um sacramental (celebração que se revestem da forma de sacramentos, mas não sacramentos). Ao celebrarmos os sacramentos, vamos tomando cada vez maior consciência do compromisso que temos com Deus e com a sua criação: somos seus filhos e, a exemplo de Jesus Cristo, devemos amar, ser justos e agir com misericórdia. Quando celebramos um sacramental, reafirmamos a vontade de viver à luz do amor pascal de Cristo, ou seja, reafirmamos a decisão de caminhar segundo o compromisso de fé que nossos pais e padrinhos assumiram por nós no batismo ou que nós mesmos assumimos em nosso crisma.
    No sacramental, o mistério pascal é reconhecido como a vida da pessoa e da humanidade inteira. Evidentemente, a morte faz parte da vida humana, da mesma forma que a morte de Cristo foi passagem necessária para a ressurreição. Esta etapa, pela qual todos passaremos, também é celebrada pela Igreja na forma de um sacramental: a celebração das exéquias.


   
A celebração da esperança cristã

   Os ritos de sepultamentos são comuns a toda cultura e religião, já que, se existe algo comum a todas elas, é justamente a realidade morte. No entanto, para os cristãos, a celebração encontra num sentido especial. De um lado, Cristo é apresentado como vencedor da morte e fonte da ressurreição. De outro, a passagem do cristão é associada à páscoa de Cristo, o que é proclamado nas leituras e nas orações. Por isso, as exéquias são também conhecidas como celebração da esperança da esperança cristã.
    Os símbolos utilizados nesta celebração nos remetem ao nosso batismo: cruz velas ou círio pascal, aspersão com água benta e incensação do corpo. Eles nos fazem lembrar que participamos da morte de Cristo para também participarmos da sua glória e ressurreição. Como o incenso, sobem aos céus as nossas preces pela pessoa que encerrou sua caminhada na terra.
   Os ministros ordinários as exéquias são os Bispos, Padres e Diáconos; porém, as exéquias não são liturgia propriamente de ministros ordenados. Em muitas comunidades são formados ministros extraordinários especialmente para essas celebrações, que podem ser feitas na casa do defunto, em uma Igreja ou capela ou no próprio cemitério. Em alguns lugares preserva-se o costume da "missa de corpo presente", o que tem o seu sentido na medida em que "a eucaristia é o coração da realidade pascal da morte cristã", onde a Igreja expressa a sua comunhão também com aquele que parte. No entanto, nas comunidades maiores, isso pode ser um problema, já que padres têm um grande número de pessoas para atender e devem dedicar-se igualmente aos outros sacramentais.
  Essas celebrações são também importantes momentos de reflexão sobre a antropologia cristã (ciência que estuda o ser humano à luz do cristianismo). O ser humano é uma pessoa, constituída de corpo e alma, dimensões que possuem o mesmo valor. Quando uma pessoa celebra, por exemplo, cordo e alma celebram. Quem morre é a pessoa como um todo: corpo e alma passam por esse processo, mas o corpo é depositado no túmulo ("do pó vieste, ao pó retornarás...") e a alma encontra repouso na luz eterna. A morte, nesse sentido, é como uma migração, uma libertação. Nunca, porém, podemos analisar a morte como o fim da existência humana, um castigo para o corpo do pecador... A morte é, sim, a conclusão de uma etapa, sem a qual a pessoa não atinge a plenitude da ressurreição, ou seja, da vida eterna. "O grão precisa cair na terra e morrer para produzir fruto...". 



Celebração, consolo da fé 

   Na situação da perda de uma pessoa querida, a liturgia não deve somente comunicar uma mensagem sobre a crença na ressurreição, mas também trazer uma palavra de conforto e de consolação para a família e os amigos do falecido. Podemos perceber isso da estrutura da celebração: o primeiro tempo é uma consolação da fé dirigida aos parentes do defunto; o segundo tempo é a liturgia da Palavra, que compreende uma, duas ou três leituras bíblicas, homilias e prece universal; um terceiro elemento é a recomendação e a última saudação. A liturgia da Palavra deve ser bem preparada, pois nas exéquias podem estar tanto pessoas que têm participação ativa na comunidade como pessoas que há muito tempo estão afastadas da comunidade de fé, tornando-se celebração uma oportunidade para evangelizar a todos.
  Além da fé na ressurreição, exprime-se nas exéquias e na oração pelo defuntos a fé na realidade da "comunhão dos santos", vivos e defuntos. A oração pelos vivos foi incluída no ano de 1969, quando houve a reforma necessária para atender às inovações do Concílio Vaticano II (1963- 1965). Até então, rezava-se apenas pelos mortos, e essa dimensão dos santos não era abordada. Rezar também pelos vivos é uma necessidade humana e pastoral e expressa uma realidade que já vivemos em toda eucaristia, quando todos se reúnem ao redor da mesa, no grande banquete de ação de graças para o qual Deus nos convida. 
   A respeito da celebração dos funerais, o Catecismo da Igreja Católica, n. 1960, afirma: "O adeus (a Deus) ao defunto é a sua encomendação a Deus' pela Igreja. Este é o 'último adeus pelo qual a comunidade cristã saúda um de seus membros, antes que o corpo dele seja levado à sepultura. A tradição bizantina o exprime pelo jeito de adeus ao falecido. Com esta saudação final ' canta-se por causa da sua separação, mas também porque há uma comunhão e uma reunião. Com efeito, ainda que mortos, não estamos separados uns dos outros, pois todos percorremos o mesmo caminho e nos reencontraremos no mesmo lugar. Jamais estaremos separados, pois vivemos por Cristo e agora estamos unidos a Cristo, indo em sua direção... estaremos todos reunidos em Cristo!"


segunda-feira, 20 de janeiro de 2014

Pecados venial e mortal

Existe mesmo uma classificação dos pecados? ainda se fala em pecado mortal e venial?

     Só é correto falar de pecado a partir do Evangelho da misericórdia e de uma vida vivida como seguimento de Jesus. O projeto de vida plena para as pessoas humanas foi ensinado e vivido por Jesus. No seguimento de Jesus, nas vivências e atitudes concretas, provenientes de nossas livres decisões, é que vamos construindo nossa maior ou menor adesão a ele e ao próximo, ou nosso rompimento com ele e com o próximo.
   Existe algum critério para avaliar isto? A Bíblia fala-nos de mandamentos. Essas são indicações seguras para o nosso agir. Ela também fala de diferente gravidade que pode existir as ações que praticamos: há pecado que não conduz à morte (cf. 1Jo 5, 16-17). A partir da luz que vem da Palavra de Deus, nossa Igreja nos ensina que há pecados que rompem nossa comunhão com Deus, destroem a graça de Deus no coração da pessoa humana (pecados mortais).
     Todos somos efetivamente pecadores! "Se dissermos: não temos pecado, enganamo-nos a nós mesmos, e a verdade não está em nós..." (1Jo 1, 8-9). Mesmo permanecendo no amor de Cristo, são Tiago diz: "Todos nós tropeçamos frequentemente" (Tg 3, 2). No Pai Nosso, Jesus nos ensinou a pedir "Perdoai-nos as nossas ofensas assim como nós perdoamos a quem nos tem ofendido" (Mt 6, 12).
     Nossos pecados podem ser ações ou omissões que dizem a respeito a Deus, ao próximo, a nós mesmos ou à natureza, e devem brotar do "coração da pessoa" (da consciência), e com suficiente conhecimento e livre deliberação. É bom senso pensar que em qualquer desses campos existem aspectos mais graves e outros menos graves. Mais importante, porém, é estar convencido e empenhado na exigência radical da conversão proposta pelo Evangelho, que é o caminho para a santidade. Não penso que todos os pecados graves possam ser equiparados aos pecados mortais; tão pouco que os pecados veniais sejam considerados não-sérios. Gosto desta comparação: "pensar que os pecados veniais não possam ser sérios ou graves é tão irracional quanto considerar todas as doenças e enfermidades como não sendo sérias, pois só a morte é que seria graves" (Bernard Häring, teólogo). 
     Precisamos, sim, arrepender-nos dos pecados veniais e converter-nos, mesmo porque, do contrário, vamos contraindo hábitos e vícios que podem obscurecer valores, tornar-nos insensíveis ou diminuir nossa liberdade e capacidade de crescer na prática das virtudes e do bem.
     Tem ainda um aspecto que considero dos mais importantes. Pelo Batismo, nós não somos membros do corpo de Cristo? "Se um membro sofre, todos os membros compartilham o seu sofrimento, se um membro é honrado, todos os membros compartilham a sua alegria" (1Cor 12, 26). Todo pecado diminui a presença efetiva da salvação e aumenta as forças do mal. Lesa também a salvação de nossos irmãos e é uma ofensa a Cristo que morreu por todos.
       Ter um coração convertido é ser luz para o mundo!

Veja mais: Pe. Paulo Ricardo explica com mais afinco o que é um pecado mortal.

domingo, 19 de janeiro de 2014

A paciência e a rebeldia de Jó diante do sofrimento

Abrindo as portas do livro de Jó

     A história narrada do livro de Jó era muito conhecida no antigo Oriente e na Palestina, bem antes de o livro ser escrito. O personagem central do livro é estrangeiro, certamente de Hus, ao sul de Edom (cf. Jó 1,1). As pessoas daquele tempo tinham também suas inquietações a respeito da dor e do sofrimento. No tempo de Jó se aprendia que o sofrimento vinha de Deus. A teologia da retribuição foi pregada no pós-exílio da Babilônia, representada pelos teocratas que afirmavam ser o templo a moradia de Deus único e oficial. Tal Deus não escutava o clamor nem o grito dos pobres (cf. Jó 24, 12). Ele só atendia a quem cumprisse toda a lei ditada a quem cumprisse toda a Lei ditada pela religião oficial. O culto no templo era única forma de um impuro tornar-se purificado diante de Deus e voltar a participar da vida social. Essa religião excluía os estrangeiros, os doentes, os aleijados, as mulheres, os empobrecidos as pessoas bem-sucedidas eram justam e abençoadas por Deus, e aquelas que tinham algum sofrimento ou doença eram pecadoras e amaldiçoadas por ele. É nesse contexto que vai surgir a literatura sapiencial do Primeiro Testamento, revelando um novo rosto de Deus.

Abrindo a primeira porta do livro de Jó

   A primeira porta do livro de Jó é uma narrativa em prosa composta dos capítulos iniciais e dos versículos finais: 1-2 e 42, 10-17. Jó, pessoa temente a Deus, possui muitas riquezas e filhos. Satã desafia Deus, dizendo que é muito fácil para Jó ser fiel, pois ele tem tudo de que necessita, mas bastaria tocar nele para ver o que aconteceria! Deus permite a Satã provar Jó. Por essa aposta, Jó perde todos os seus bens e os seus filhos. Mesmo assim, permanece firme, é abençoado em dobro.
  Essa história reforça a teologia da retribuição, que tem por princípio a fidelidade a Deus é recompensada com riqueza e vida longa (cf. Dt 30, 15-20)
   Essa narrativa em prosa (1-2 e 42, 10-17) mostra os três amigos de Jó que ficam sabendo de desgraça e vão ao seu encontro para consolá-lo. De acordo com a tradição judaica, os amigos cumpriram seu dever. Eles permanecem ao lado de Jó, em silêncio, por sete dias e sete noites, pois o sofrimento é muito grande. Eles tentam compreender a situação à luz de sua fé, sem considerar a experiência de Jó. Os amigos estão comprometidos com a teoria e não com a vida. 
     Nos capítulos 1 e 2, Jó é paciente. Reforça a teologia da retribuição. Para o pessoal do templo, as pessoas que eram pobres, doentes e sem filhos eram pecadores e amaldiçoadas por Deus, e aquelas que tinham saúde, riqueza e filhos eram puras e abençoadas por Deus. É aí que entra todo o questionamento do livro de Jó. Ele é um justo que não pecou e está sofrendo.
      Em Jó 42, 7-9, os amigos são recriminados por Deus, que exalta a atitude de Jó. Em 42, 10-17, Jó paciente é recompensado em dobro. Também está na lógica da teologia da retribuição: "Sofre com paciência que Deus o recompensará".

Abrindo a segunda porta do livro de Jó

     A segunda porta é uma narrativa poética (3, 1 e 42,6) e começa com um lamento de Jó.
     Jó amaldiçoa o dia do seu nascimento. Era preferível não ter nascido, pois assim não passaria por tanto sofrimento. Para ele a morte iguala a todos (cf. Jó 3, 19). O seu grito nasce da vida dura, da dor, da falta de tranquilidade, além do tormento (cf. 3, 26).
     Aqui conhecemos um Jó rebelde. O texto vem de outro lugar social, reflete outra situação de vida. Provavelmente revela o drama das famílias que perderam suas terras e agora são meeiras arrendatárias, gente endividada que paga sua dívida com trabalho escravo. Conversando sobre os afazeres do cotidiano e sobre a vida, ouvindo e convivendo uns com os outros, compartilhando suas dores, angústias e temores, outra imagem de Deus ia ficando clara para eles. Podiam experimentar a presença de Deus na solidariedade, na partilha e no apoio mútuo. 
    Dessa vivência é que vinha a sua força. Era essa prática que os levava a encontrar com o Deus da vida, um Deus bem diferente daquele que aparece nos capítulos 1-2 e 42, 7-12. Vai surgir aí uma nova teologia, a partir do cotidiano. Deus está no meio de nós, escuta o nosso clamor e desce para nos libertar (cf. Ex 3, 7). Em 42, 5 vai aparecer uma confissão de fé feita por Jó: "Eu te conhecia só de ouvir. Agora, porém, meus olhos te veem". 

quinta-feira, 16 de janeiro de 2014

O Cardinalato — Novos Cardeais da Igreja

   Cardeal é o prelado da Igreja católica investido na dignidade de membro de um colégio especial, ao qual compete assegurar a eleição do Papa. Os Cardeais, também, assessoraram o Santo Padre, agindo colegialmente, quando são convocados para tratar juntos as questões de maior importância, ou individualmente nos diversos ofícios que exercem, prestando ajuda ao Romano Pontífice, principalmente no cuidado cotidiano da Igreja universal. O cardinalato não é sacramento da ordem, como o episcopado e o presbiterato, mas função consultiva ou administrativa nas congregações, tribunais e ofícios, que constituem a cúria romana, competindo-lhe com exclusividade a eleição do Papa.

Após o Angelus deste domingo, 12, Papa Francisco anunciou os nomes dos bispos/arcebispos que serão criados cardeais no próximo consistório, a ser realizado em 22 de fevereiro deste ano. Confiram:



1 – Dom Pietro Parolin, arcebispo titular de Acquapendente, Secretario de Estado
2 – Dom Lorenzo Baldisseri, arcebispo titular di Diocleziana, Secretário Geral do Sínodo dos Bispos.
3 – Dom Gerhard Ludwig Műller, arcebispo-bispo emérito di Regensburg, Prefeito da Congregação para a Doutrina da Fé
4 – Dom Beniamino Stella, arcebispo titular di Midila, Prefeito da Congregação para o Clero.
5 – Dom Vincent Nichols, arcebispo de Westminster (Grã Bretanha).
6 – Dom Leopoldo José Brenes Solórzano, arcebispo di Managua (Nicaragua).
7 – Dom Gérald Cyprien Lacroix, arcebispo di Québec (Canadá).
8 – Dom Jean-Pierre Kutwa, arcebispo de Abidjan (Costa d’Avorio).
9 – Dom Orani João Tempesta, O.Cist., arcebispo do Rio de Janeiro (Brasil).
10 – Dom Gualtiero Bassetti, arcebispo de Perugia-Città della Pieve (Italia).
11 – Dom Mario Aurelio Poli, arcebispo di Buenos Aires (Argentina).
12 – Dom Andrew Yeom Soo jung, arcebispo de Seoul (Korea)
13 – Dom Ricardo Ezzati Andrello, S.D.B., arcebispo di Santiago del Cile (Cile).
14 – Dom Philippe Nakellentuba Ouédraogo, arcebipso de Ouagadougou (Burkina Faso).
15 – Dom Orlando B. Quevedo, O.M.I., arcebispo de Cotabato (Filippine).
16 – Dom Chibly Langlois, bispo di Les Cayes (Haïti).